Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos, e olha para a nossa desolação... pois não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias.
A oração que agrada a Deus e preenche o vazio no coração do homem não se apoia na justiça humana, mas na misericórdia de Deus.
Daniel era um homem de oração. Um profeta que, mesmo no cativeiro babilônico, não perdeu a comunhão com Deus, em espírito. Seu coração estava quebrantado pela desolação da sua cidade Jerusalém e por tantas vidas que se perderam, mas isso não foi motivo para se afastar de Deus.
Neste clamor, ele revela o seu espírito de verdadeiro intercessor: ele não confia em si mesmo, mas nas misericórdias de Deus, o único que poderia consolar os corações desolados.
No auge da ruína, Daniel ergue os olhos para o trono e diz: “(...) não lançamos as nossas súplicas perante a tua face, fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias.”
Este versículo contém a essência espiritual de um coração humilde e conhecedor da verdade sobre o homem e sobre Deus, sobre quem necessita e quem pode suprir as necessidades. Daniel reconhece a impotência humana e a abundância da graça divina.
A verdadeira oração começa com o reconhecimento da própria indignidade. Daniel reconhece sua incapacidade: “Inclina, ó Deus meu, os ouvidos, e ouve (...)”. Daniel clama a um Deus que ouve. Ele não exige, ele suplica. Sua postura é de quem sabe que nada merece.
A expressão “inclina os ouvidos” mostra dependência e humildade. O profeta sabe que Deus é soberano e que o homem é pó (Salmo 103:14). Quantas vezes não se ora com arrogância, achando que Deus lhe deve algo? Daniel nos ensina que o ouvido de Deus se inclina a quem se humilha (Isaías 57:15). A oração sobe mais alto quando nasce do pó.
Daniel vê a realidade, fruto da simples constatação de alguém com bom senso: “(...) olha para a nossa desolação (...)”. Ele não nega a ruína. Não mascara a vergonha de Jerusalém. O pecado trouxe desolação, mas Daniel não tenta justificar-se. Ele confessa a verdade. Deus não cura o que fingimos não estar doente. Só há restauração onde há confissão. (1 João 1:9). A cura começa quando paramos de esconder as feridas.
Daniel apela ao caráter de Deus: “(...) olha... para a cidade que é chamada pelo teu nome (...)”. Daniel lembra que Jerusalém pertence a Deus; o nome de Deus está envolvido naquela restauração. Ele não pede por mérito do povo, mas pelo zelo do nome do SENHOR (Ezequiel 36:22). A oração que glorifica a Deus é a que mais abençoa o homem.
A verdadeira confiança bíblica não se apoia na força do homem, mas nas misericórdias de Deus. O crente não confia em seus méritos, mas nas compaixões do SENHOR: "(...) não lançamos as nossas súplicas... fiados em nossas justiças (...)”. Daniel reconhece que não há justiça suficiente no homem para mover o coração divino. Isaías já dissera: “Todas as nossas justiças são como trapo da imundícia” (Isaías 64:6).
O texto é finalizado com as seguintes palavras: “(...) mas em tuas muitas misericórdias”. Daniel fundamenta seu clamor na abundância da compaixão divina. O plural “misericórdias” revela a infinitude da graça de Deus que se renova todas as manhãs (Lamentações 3:22-23). Um rio não seca por causa de uma pedra no leito; as misericórdias de Deus correm apesar das nossas falhas. A esperança do homem é a inesgotável misericórdia de Deus.
A base de toda a intercessão em nosso favor é Cristo. Daniel olhava para as misericórdias futuras; nós olhamos para Cristo no Calvário, onde a misericórdia resplandeceu mais gloriosa. Em Cristo, a justiça e a misericórdia se beijaram (Salmo 85:10). Quando oramos em nome de Jesus, Deus ouve não por quem somos, mas por quem Ele é.
Deus responde àqueles que se humilham e confiam em Sua graça. Daniel pede que Deus ouça, e ELE ouviu: (v. 23: “Ao princípio das tuas súplicas saiu a ordem”). O céu se move quando um coração quebrantado fala. Nenhuma lágrima passa despercebida por Deus (Salmo 56:8). Quando o homem ora na terra, Deus se levanta no céu.
Daniel não orou porque era justo; ele orou porque Deus é misericordioso. Sua súplica ecoa através dos séculos, ensinando que a oração não é um mérito, mas uma necessidade humana que aciona o botão do milagre da graça. Quando o crente abandona a confiança própria e se lança na misericórdia divina, o céu se abre.
Ore como Daniel, não porque você é bom, mas porque Deus é bom. Não porque você merece, mas porque ELE se compadece. E lembre-se: as portas da misericórdia estão sempre abertas para quem entra de joelhos. A oração do justo não é forte porque o justo ora, mas porque o Deus da misericórdia responde.
Deus e Cristo Jesus sejam louvados! Amém.

